domingo, 1 de fevereiro de 2015

Material de Apoio - Arquearia IV: realidade do combate com arco I


Arquearia IV
- Realidade do combate com arco I -

Normalmente estamos acostumados, quando lemos ou assistimos obras de fantasia medievais, em ver a atuação ímpar dos grupos de arquearia e de como eles podiam mudar os rumos de um combate. Linhas com dezenas, quem sabe centenas, de arqueiros lançando ao ar uma chuva de flechas para cair sobre seus inimigos. É impressionante e, por que não dizer, maravilhoso.

Mas como historiador e rpgísta sempre fico com uma leve interrogação em minha mente para confirmar tais fatos. Depois de quase três anos desde o lançamento do Material de Apoio – Arquearia, postado por nosso colaborador Julio Oliveira, volto ao tema para reeditar e complementar alguns pontos que considero que acharão muito interessantes. Esta postagem ganhou ainda mais força e importância depois do lançamento de um vídeo do arqueiro Lars Anderson, mas que me aprofundarei em uma postagem paralela.

A questão básica é: até que ponto a arquearia era realmente importante para a definição de um combate em massa, ou importante à ponto de desequilibrar para um lado ou outro. O que estamos acostumados à ver e ler é que após um ataque da arquearia tínhamos centenas de corpos estatelados no chão, com ou sem armadura. Isso era real? Vamos ver.

Primeiramente vamos direto ao ponto de desfazer um mito. As flechas não eram tão eficientes quanto imaginamos em um combate de massa, mas não deixavam de ser importantes no resultado final. A ação da arquearia era importante sim, mas não da forma como estamos acostumados à ver. Se pensarmos nos combates entre exércitos da idade antiga, principalmente no que conhecemos como Oriente Próximo, duas coisas foram fundamentais e decisivas para as vitórias – o uso do cavalo e dos arcos. Mas uma coisa foi determinante para essa importância e atuação tão grande dos arcos nessa época. O salto tecnológico dos arcos, e seu poder de destruição (acerto e dano), eram muito superiores ao elemento de proteção da época. Normalmente os guerreiros daquela época e daquele ambiente não usavam poderosos escudos ou pesadas armaduras. Muitas vezes a proteção se resumia à um escudo pequeno, quase um broquel, um elmo e a proteção do corpo com um peitoral de couro, além de uma proteção também de couro para o braço que usava a espada. Nestas circunstâncias o disparo de uma flecha era mortal na grande maioria das vezes.

Mas na Idade Média o caso é muito diferente. Quando pensamos em cavaleiros não imagino alguém que esteja indo para o campo de batalha sem proteção e essa proteção é que passou a ser o grande diferencial para a importância e eficiência do arqueiro.

Como eu já disse nas postagens anteriores, o arqueiro nessa época era alguém bem treinado – fosse ele fazendo parte de uma guarda ou exército, com seu intenso treinamento, fosse ele um camponês, com seu treinamento na lida diária desde a mais tenra idade. Eles sabiam como usar e os efeitos de seus disparos. Do outro lado nós tínhamos os cavaleiros que também sabiam da letalidade de um disparo de arco sem a proteção devida e tinham o conhecimento de como se proteger. Embora eu pretenda ainda lançar o Material de Apoio para armaduras e vestimentas medievais, darei aqui uma explicação básica.

Os cavaleiros da época usavam nada menos do que uma proteção tripla composta de uma armadura de placas de metal, uma cota de malha e por uma roupa acolchoada de algodão (aketon). Era um verdadeiro sistema de camadas de proteção muito eficiente. Mas o grosso da infantaria não tinha recursos próprios ou do seu senhor para ter uma armadura completa, então eles se protegiam com apenas duas camadas – o aketon e com a cota de malha. E isso já era mais que o suficiente e por essa proteção dupla é que vamos analisar a importância do arco em campo de batalha.

Toda a proteção começava com o aketon (também conhecido como arming doublet e muito comum a partir do século XV). Ele era um camisão acolchoado feito de múltiplas camadas de algodão (pelo menos 25 camadas de tecido de algodão costuradas de forma acolchoada). Sua função era, por incrível que possa parecer, a mais importante das duas camadas (ou no caso dos cavaleiros, das três camadas). Ela não só servia para absorver o impacto direto ao máximo sofrido pelo cavaleiro, quanto para tentar frear a penetração de uma flecha ao máximo. Por cima do aketon tínhamos a cota de malha feita de anéis de metal entrelaçados. Ele era pouco efetivo contra as flechas, sendo muito eficaz contra lâminas. De qualquer forma o conjunto era um problema para uma arquearia ofensiva.

Por que todo este rodeio de informações? Um dos mitos que temos é que imaginamos (ou vemos em filmes e lemos em livros de fantasia) aquela grande linha de arqueiros disparando para o alto para atingir um grande número de alvos, matando-os, à longa distância. Como eu disse, isso é um mito. Poderia funcionar muito bem contra exércitos antigos com sua precária proteção (quando tinham alguma), mas era ineficiente em combates medievais (tal qual com os de fantasia) mis elaborados. À longa distância as flechas não teriam força suficiente para qualquer tipo de dano significativo à um cavaleiro protegido, sendo um desperdício de munição. Para terem uma idéia baseada em números, uma flecha disparada à cerca de vinte metros de distância de um alvo com essa proteção dupla, não penetraria nem causaria dano por perfuração. Incrível não é? Mas isso significa que as flechas eram ineficazes? Não, muito pelo contrário. O que temos aqui é uma verdadeira batalha, mas de conceitos e de desenvolvimento de tecnologias de guerra, além de pura estratégia ancorada em conhecimento de campo de batalha.

Então os arqueiros se viram obrigados a atuar muito mais próximos do combate em si do que imaginamos, descartando aquela linha enorme de arqueiros protegidos pela distância. Daí você pode me perguntar: mas se o disparo não é capaz de atravessar a proteção do guerreiro ou do cavaleiro, por que raios eles iam para o campo de batalha e ainda por cima muito próximos da ação? Pois embora eles não perfurassem as proteções do adversário, atingindo sua carne, eles causavam sim dano, e muito sério, mas por concussão. A dupla proteção poderia proteger da perfuração da flecha e mesmo absorvendo parte do impacto, transferia o restante deste impacto para o corpo. Para terem uma idéia, no mesmo exemplo que usei anteriormente sobre a ineficiência de um disparo à cerca de vinte metros para penetrar o corpo do alvo, essa mesma flecha seria capas de transferir para o corpo um impacto de cerca de 136kg, o equivalente ao impacto direto de um projétil de um Magnun 44. Isso já seria capas de causar dano interno considerável, além de muita dor. Agora imaginemos que um arqueiro era capaz de disparar cerca de doze vezes em um minuto com um arco de 100 libras. Se tivermos um pequeno grupo de cem arqueiros disparando incansavelmente por apenas alguns segundos, que seria o necessário para um guerreiro tentar cruzar esses vinte metros que o separa dos arqueiros, já teriam sido disparadas algumas centenas de flechas com este enorme impacto atingindo os guerreiros adversários diretamente.

Isso significa então que as flechas nunca perfuravam esses guerreiros? Claro que não. Sempre poderia haver algum dano no rosto, em pequenas falhas das proteções, nos membros inferiores ou mãos, mas o principal de sua atuação era por impacto direto no tronco. Essa era a verdadeira força dos arqueiros no campo de batalha. Eles eram mortais, mas não por simplesmente perfurar seus adversários, mas por causar-lhes dano substancial.

Vamos à uma segunda informação muito interessante e que parecia novidade até poucos dias atrás - o tiro duplo de flechas. Lógico que os cavaleiros e soldados à pé estavam cientes deste efeito do dano por concussão infringido pela arquearia que apresentei no texto acima. Então nunca foi tão importante quanto naquele momento o uso de escudos pesados e longos. Se já era complicado atingir danosamente um alvo com toda aquela proteção, com o uso do escudo seria quase impossível. O artifício utilizado pelos arqueiros era o tiro duplo de flechas, algo muito comum na época (embora em certo vídeo badalado parecesse ser algo novo). O tiro duplo consistia em disparar duas flechas em sequência rapidamente, a primeira para cima em um movimento de arco e logo em seguida uma em linha reta, paralela ao chão. A arte do arqueiro estava em realizar esse disparo de forma calculada e sincronizada para que ambos os disparos chegassem ao alvo ao mesmo tempo. O soldado ou cavaleiro teria que se preocupar com duas flechas contra ele, uma vindo de cima e outra pela frente. A intenção era de que o defensor se atrapalhasse na defesa e em algum momento oferecesse uma breca para o ataque do arqueiro. Se o defensor estivesse com proteção de menos, o efeito do ataque duplo seria ainda mais devastador, pois uma das duas flechas inevitavelmente atingiria o alvo.

Com tudo isso que apresentamos é compreensível a importância dos arqueiros em combate entre exércitos mesmo com esta peculiaridade do dano por concussão. Além disso, é óbvio que disparos à longa distância, em arco, aconteciam, mas eles tinham o objetivo muito mais de deixar afastados os adversários e de, se possível, ter a sorte de atingir algum desprotegido.

Lógico que tudo isto que apresentamos era relacionado à combate campal principalmente. Se o combate fosse para o cerco ou ataque de uma fortificação, ou defesa dela, as funções seriam muito diferentes. Inclusive a escolha do tipo de ponta de flecha utilizada variava conforme a ação e intenção do combate. Mas isso é um assunto para outra postagem!


Um comentário:

Dija disse...

Imensamente útil esse tipo de informação. Não passou pela minha cabeça que na verdade a mecânica do combate fosse essa. E caramba, 136kg...